Miguel Mestre – encenador (peça Drácula)

001_DSC03234by Ana Carrilho (ana.carrilho@portugalfantastico.com)

Entrevista a Miguel Mestre, encenador da peça Drácula que esteve em cena no Espaço Municipal de Flamenga, Auditório Fernando Pessa.

PF- Que balanço faz até aqui do seu trabalho?

Felizmente, o balanço não poderia ser mais positivo. É uma carreira de encenação de 22 anos, sempre com o privilégio de trabalhar com fantásticos atores amadores, com os quais me inspiro e aprendo muito. Poder ser o encenador residente do Teatro Contra-Senso permite-me criar originais e encena-los.

PF – O Miguel adaptou a obra de Bram Stoker com o Grupo Teatral Contra-Senso. Porque quis ressuscitar o Conde Drácula, da famosa obra do escritor?

Em 1997 já havia levado à cena esta obra no palco do Teatro Maria Matos, com um elenco na altura muito jovem e com pouca experiência na área da representação. Hoje, com atores mais maduros e mais experientes, decidi voltar a trazer de novo à vida Drácula, respeitando cada parágrafo da obra de B.S

PF – Que mais peças encenou antes e quais as que mais lhe marcaram?

Já encenei até agora mais de 15 peças, sendo que a maioria são originais meus. Tento em todos os meus textos conferir-lhes diferenças para que se distingam uns dos outros permitindo-me assim, também experimentar vários tipos de teatro e abordagens. Não gosto de me restringir a um só género, nem me caracterizo por um determinado género teatral. Quem gosta verdadeiramente de teatro, quem se deixa abraçar pela magia dele, agrada-se com todos os géneros teatrais, podendo, obviamente ter uma predileção por um determinado género, mas eu pessoalmente gosto de todos os tipos de teatro.

Faço questão de percorrer várias épocas da história, tendo sempre uma predileção pela analogia com fatores que remetem para a mitologia grega. Pretendo igualmente que as minhas peças passem uma mensagem, pois esse, quanto a mim, é o principal objetivo do teatro. As peças que mais me marcaram foram “A Colina”, pela sua forte componente humanista e pela sua mensagem sempre atual e “Road”, um musical que se demostrou ser o maior desafio da minha carreira como encenador pois queria ao máximo poder igualar a qualidade dos musicais londrinos, mas ficou a faltar o investimento para poder conferir o brilho e as exigências técnicas de uma obra desta envergadura.

PF- Sempre encenou ou também tentou a representação? Em que altura é que pisou o palco pela primeira vez.

Comecei por ser ator das minhas próprias encenações. Pisei o palco pela primeira vez em 1992 quando representei o auto da barca do inferno.

PF- Como é que o teatro o faz sentir. Como é que gostava que as pessoas sentissem o teatro?

O teatro faz-me viajar por mundos imaginários, é como ler um livro, prende-me a uma realidade fictícia criada por toda a fantástica máquina do imaginário que é o teatro. Felizmente que o teatro já começa a ser desmistificado nas gerações presentes, na escola o teatro já é transmitido como uma forma de cultura acessível e não elitista. De facto absorver teatro não é tão fácil quanto absorver tv ou mesmo o cinema. Há gostos para tudo, tal como existem deferentes pessoas, existirá sempre uns que gostarão mais de teatro do que outros. A opção de gostar de teatro revela muito o intelecto de um povo. Gostaria que as pessoas sentissem o teatro como uma forma de escape do quotidiano, como uma alternativa à rotina da mente, gostaria que o teatro fizesse parte da ” higiene” cultural de todos. Às vezes basta criar hábitos, a desculpa de que o teatro é mais caro que o cinema já não se aplica.

PF- O Miguel está de acordo que não há investimento na cultura, nomeadamente no teatro no nosso país?

Há investimento na cultura, e relativamente ao teatro existe investimento e muito investimento. Só que esse investimento encontra-se mal distribuído. Os grandes titãs do teatro Português continuam a ser os mesmos, continua a ser sempre o mesmo nicho, o lobby está muito presente no teatro, tal como em muitas outras componentes do nosso país. Temos sempre os mesmos encenadores a trabalharem em mais do que uma companhia de teatro, temos os mesmos atores a fazerem TV e cinema em simultâneo, reduzindo assim as oportunidades a quem está de fora. Não existem as apostas que deveriam existir para novos talentos. Assistimos a peças de teatro com cenários orçamentados em centenas de milhares de euros, quando depois as salas estão vazias porque as obras escolhidas se destinam a uma ínfima parte dos espectadores. Para grandes orçamentos, faz sentido grandes espetáculos de sala cheia e de anos em cena. Aqui é ao contrário, grandes investimentos para uma fatia muito pequena de espectadores para salas sempre vazias. Enquanto o teatro não deixar de ser feito para os umbigos de quem o produz em detrimento de ser feito para os espectadores, as salas não irão encher e não conseguiremos canalizar as atenções do público para o teatro.

PF- Como é o papel dos media na divulgação e promoção da cultura?

Considero que o papel dos média tem vindo a ser muito bem respeitado na vertente da cultura. Ainda para mais, com as ferramentas de internet que cada vez mais estão ao alcance de todos, considero que os média conseguem chegar a um grande número de pessoas, promovendo a cultura.

PF- O que é q aconteceu no percurso da vida do Miguel que o direccionou para o teatro?

Desde muito novo que me foi dado a conhecer o teatro e os seus bastidores e como tal isso despertou o meu imaginar. É uma tendência que quando mais alimentamos, mais nos embrenhamos nela.

PF- Já pensou em fazer cinema, televisão ou já fez?

Definitivamente teatro. Como uma professora minha me disse um dia. O teatro marca-nos como um ferro em brasa e saímos da sala ainda a sentir essa marca que perdura por muito tempo. O cinema e principalmente a TV são de consumo fácil, do género de uma pastilha elástica que perde o sabor rapidamente e substituímos por outra. No teatro há emoção, sentimos a energia do ator…que quanto a mim é o mais importante na arte de representar: atingir e sentir o público.

PF- Influências/referências do teatro que o influenciaram.

O teatro musical inglês, sem sombra de dúvida.

PF- Uma expressão que defina a vossa peça Drácula.

Envolvente. Pelo facto de toda a peça se passar em torno do público e pelo facto da própria temática prender muito a atenção do mesmo.

PF- Qual é a figura masculina do cartaz, esse homem tem alguma história?

Na obra de Copolla, o conde é retratado através de um auto-retrato de Albrecht Durer, uma pintura que se encontra numa das paredes do seu castelo em que a figura de Durer se mantém e que através da manipulação de imagem se introduziu feições do ator . Uma vez que esta encenação se inspira igualmente no filme do Copolla, fizemos o mesmo, pegamos no auto-retrato de Albrecht Durer e manipulamos no sentido de introduzir traços do ator que veste a pele do Conde.

 

Obrigada Miguel Mestre pela sua colaboração com o Portugal Fantástico.

Sucesso para vocês.

Fotos by João Oliveira

 

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